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Um novo jeito de pensar a carreira

Marcelo Soares Marcelo Soares comentários
16/11/2020, às 13:12 • 2 semanas atrás

Negociar, assinar contratos, realizar entrevistas, participar de eventos, realizar palestras e tantas outras atividades que, anteriormente, poderiam facilmente ser atribuídas a um CEO, hoje, fazem parte da rotina de muitos profissionais.

O professor que “só” ministra aulas parece perder espaço frente ao que, além da aula, faz lives, simulados interativos e vídeos no Youtube. Com o jogador de futebol não é diferente. Sua carreira, em muitos casos, depende mais daquilo que faz nas redes sociais do que da sua contribuição em campo. Não parece mais haver espaço para a figura do especialista solitário, que se dedica exclusivamente a sua atividade principal.

Nas organizações e na literatura, multiplicam-se os termos para designar a expectativa quanto a esse novo perfil profissional. Um termo, em especial, parece refletir muito bem essa expectativa: “T-shaped”.

Em 2010, Tim Brown, um dos mais influentes designers do mundo, passou a explicar em suas entrevistas que o segredo da cultura colaborativa da Ideo estava no perfil “T-shaped” de seus empregados. Segundo ele, “T-shaped” corresponde ao profissional que busca múltiplas experiências, dentro ou fora da empresa. Trata-se de um indivíduo que possui um profundo conhecimento de sua área de atuação – representado pela linha vertical da leta T -, mas também transita bem em várias outras áreas de atuação – representadas pela linha horizontal do T. Difere-se, portanto, do “I-shaped”, especialista em uma única área de atuação.

Apesar de muitas vezes soar como um fenômeno recente, encontramos exemplos extraordinários de profissionais “T-shaped” na história. Imagine como seria o currículo de Leonardo da Vinci (matemático, anatomista, inventor, poeta, músico, engenheiro, cientista, botânico…) ou mesmo de Galileu Galilei (físico, matemático, astrônomo, filósofo…).

Conhecimentos multidisciplinares permitem combinações únicas e originais que ajudam a resolver os problemas das organizações. Muitos historiadores afirmam que quando Galileu fez a descoberta da existência de montanhas na Lua, seu telescópio não tinha capacidade de ampliação suficiente para esse achado. Galileu, graças à sua formação artística em uma técnica chamada chiaroscuro, foi capaz de identificar montanhas onde os outros não viam, pois reconheceu padrões em zigue-zague que separavam as zonas de luz das zonas de sombra na superfície lunar.

Em um estudo realizado junto a vencedores do prêmio Nobel e de outros prêmios científicos (Arts Foster Scientific Sucess: Avocations of Nobel, National Academy, Royal Society, and Sigma Xi Members), evidenciou-se que os cientistas vencedores do prêmio Nobel entre 1901 e 2005 possuíam a mesma experiência profunda em seus respectivos campos de estudo do que cientistas “comuns” do mesmo período. Os vencedores do Nobel, no entanto, tinham chances significativamente maiores de estarem envolvidos em atividades artísticas, tais como: atuação amadora, dança, mágica, poesia, marcenaria, pintura e composição musical.

Sendo os conhecimentos múltiplos tão relevantes, seria possível planejar uma carreira não linear?

No livro Anticarreira, Joseph Teperman argumenta que sim. Segundo ele, o profissional que pretende ser “T-shaped”, acima de tudo, deve entender e aplicar o lifelong learning (aprendizado contínuo). Deve ainda circular entre várias atividades, aceitando os riscos inerentes a cada uma delas. Essas experiências permitem que esse novo perfil profissional seja capaz de gerar valor de várias formas e, assim, crie planos múltiplos de carreira.

A pandemia e o adiamento das provas têm forçado muitos concurseiros a desenvolverem essa habilidade. Sendo difícil prever a publicação do edital do concurso-alvo, quais os planos de carreira que podemos desenvolver até o cargo almejado? Quais os cargos podem me proporcionar uma vivência profissional enriquecedora para o cargo almejado?

Esses questionamentos, talvez, ajudem a substituir a imprecisa percepção que por vezes alimentamos de que a carreira profissional é uma corrida com uma linha de chegada. Não é.

Estudos longitudinais evidenciam que as preferências profissionais modificam-se substancialmente ao longo do tempo. Em outras palavras, o tão sonhado cargo pode se tornar um concurso-escada em poucos anos. Não é o trabalho que muda. As nossas expectativas quanto ao trabalho que realizamos que se modificam.

E se, de fato, não existe linha de chegada, o que podemos fazer?

Não tenho uma resposta certa. Aliás, ninguém tem.

Talvez, o melhor caminho seja aproveitar as oportunidades que surgirem e, assim, dentro de um plano múltiplo de carreira traçar novos objetivos profissionais a cada degrau. Você não precisa enxergar o final da sua carreira, basta identificar a próxima experiência profissional que deseja ter.

Caso seus objetivos profissionais dependam de uma aprovação em um concurso público, ficaria feliz em participar de sua trajetória. 🙂

Referências:

1. Root-Bernstein, R., Allen, L., Beach, L., Bhadula, R., Fast, J., Hosey, C., … & Podufaly, A. (2008). Arts foster scientific success: Avocations of nobel, national academy, royal society, and sigma xi members. Journal of Psychology of Science and Technology, 1(2), 51-63.

2. Grant, A. Originais: como os inconformistas mudam o mundo, Sextante, 2017.

3. Teperman, J. Anticarreira: O futuro do trabalho, o fim do emprego e do desemprego, Joseph Teperman, 2019.

4. Dossiê HSM: Seu plano multicarreira. Revista HSM Management, Edição nº 142, Setembro-Outubro, 2020.

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Marcelo Soares

Auditor do Estado do Mato Grosso ( 3º lugar em 2014). Graduado em Administração, pós-graduado em Gestão Pública e mestrando em Administração (Estratégia e Governança Corporativa). Aprovado e nomeado nos cargos de Auditor Fiscal da Receita Municipal de Cuiabá, Auditor Governamental do Piauí e Analista Judiciário área administrativa (TRF-1ª, TRT-11ª).

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